Era uma vez um puto gordito de gargalhada contagiante chamado Jorge. O puto tinha uma capacidade inata de criar uma realidade própria e viver esse seu mundo como se do real se trata-se. No inicio, tinha os seus briquedos, e projectava os seus desejos e ambições nestes objectos semelhantes a pequenas pessoas, carros, casas e afins. No seu mundo, existiam os muito maus e os extremamente bons. Não havia duvidas. Era tudo cristalino. Os bons eram sempre os melhores, e os maus tinham uma vida desgraçada, porque levavam sempre porrada dos estremamente bons.
Com o avanço da idade, a brincadeira foi-se refinando, mas o paradigma mantinha-se. A certa altura, entrou na sua vida um irmão, de seu nome Carlos, e os primeiros momentos de verdadeira partilha e companheirismo surgiram, e com estes também os primeiros momentos de inveja e raiva. O Jorge era uma criança calada, enquanto sozinha ou num ambiente desconhecido, e extrovertida com amigos. Sempre gostou muito dos seus amigos, isso ficou claro para os seus pais quando, por razões pouco interessantes para esta história, quiseram muda-lo da escola primaria onde estudava. Teve ai os seus primeiros grandes amigos e a primeira paixão, passados exactamente 30 anos, ainda hoje se lembra do seu nome: Salomé. Olhos azuis, cabelo preto curto, carinhosa, companheira de carteira e sim, lindíssima. O Jorge via a Salomé, e o seu aparelho de dentes que lhe dava uma forma engraçada de falar, como alguém que conheceria para o resto da vida. A verdade é que o Jorge dependia muito dos seus amigos e chorou muito quando percebeu que a Salomé, o Helder e o Pedro, poderiam desaparecer. Compreendeu nesse momento muitas coisas, o quanto gostava dos amigos, e o quão facil podiam desaparecer da sua vida.. como viria a acontecer mais tarde.
Havia outra coisa que o Jorge adorava, talvez aquilo que mais influenciou a sua vida: a sua familia. Pais, irmão, tios, avós, primos, todos eram muito juntos e teve uma infância invejável, onde serões de conversa e brincadeira se proporcionavam em aniversários, natal, férias de verão, e tantos outros momentos. Ainda hoje, passados exactamente 30 anos, o Jorge, recorda com nostalgia os momentos que passou. Os pais e o irmão sempre o ajudaram o Jorge, e por mais que este lhes tenha dito coisas que não soube controlar por raiva e incompreensão, sempre os adorou e nunca duvidou do quanto eles gostavam dele.
O Jorge sempre teve sorte com os amigos e o periodo passado no liceu foi determinante na sua vida, teve um grande grupo de amigos, conheceu desafios, venceu, teve derrotas, passou, reprovou. No fim desse periodo perdeu o contacto com quase todos os amigos, mas guardou as memórias de paixões e amigos que o ajudaram a crescer. A universidade deu-lhe o melhor grupo de amigos de sempre e que ainda hoje mantém, e deu-lhe a conhecer o verdadeiro amor e a vida a dois. A sua vida entrou num momento estranho depois da universidade, começou a trabalhar, longe dos pais e da pessoa que amava e encontrou um mundo diferente. As coisas deixaram de ser cristalinas, definidas, e o cinzento era uma côr comum. Com o tempo e por razões que nada trariam de interessante a esta história, separou-se da pessoa que talvez mais tenha influenciado a sua vida. Ainda hoje, quando vejo o Jorge, ele fala deste período com os olhos a lacrimejar, quase posso ver o pequeno puto gordito novamente; talvez um dos poucos momentos em que realmente o consegui ver totalmente exposto.
O Jorge tem hoje uma vida rápida sobre o cinzento. Ainda sente o frio na barriga quando têm um desafio pela frente, ainda sente o coração a bater quando vê uma mulher bonita a passar, ainda sente que pode ir mais além.. o Jorge é um de nós, e se o virem passar por aí hoje, por favor dêem-lhe este recado: gostei muito da história da sua vida, daqui para frente, peçam-lhe que tente abrandar o ritmo, que aproveite mais, que viva mais, afinal de contas, o puto gordito merece!